terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O LADO PODRE DA MAÇÃ: HISTÓRIAS PARA NINAR O RACISMO BRASILEIRO.

PROF. Dr. HENRIQUE CUNHA JUNIOR
Universidade Federal do Ceará - UFC. 

Como ninar o racismo brasileiro.

Passei na loja, e as luzes tornavam vermelho encarnado reluzente a cor eterna da maçã. Trouxe comigo como lanche para o intervalo do trabalho. Escolhi a pracinha para comê-la. Apetitosa, fui mordendo de dentada em dentada, apreciando o sabor do alimento. Numa das dentadas, um gosto estranho fez-me cuspir o bocado mordido no chão. Estava podre, fui enganado pela casca reluzente em brilhante polida a cera do produto comercializado escondia outro realidade. Com meia raiva joguei no lixo. Ficando depois a observar o nada da desilusão. Fizeram-se minutos e passou a figura castigada pela vida do mendigo. Remexendo o lixo encontrou o pedaço podre da maçã e ficou radiante. Saiu comendo. Foi justamente assim, fez como se limpasse a sujeira da casca na imundície do terno e saiu comendo. Senti-me pequeno, confuso, estava estragado e no lixo e ainda diante da provação imposta parecia regalo.

As realidades são duras e os lados da sociedade impassíveis vêem os dois lados da maçã com insensível naturalidade. Penso se somos humanos ou se nos foi roubada a sensibilidade de sermos humanos. Temos ou criamos profunda insensibilidade de até mesmo nos divertimos com o trágico. Sim, de nos divertirmos com o trágico. 

A minha mãe, professora primária dos idos tempos da escola primária, escolada da vida nesta sociedade de insensibilidades desonestas, sempre insistiu comigo. Com menos de 7 anos de idade, antes de ir para escola ouvia com atenção. Se te chamarem de macaco retruque, chame-os de rato branco. Se insistirem, bata jogue pedra, faça o que for necessário, mas não traga desaforo para casa. Com o tempo, descobri que as mães dos meus colegas não davam tais conselhos, preparando-os para a guerra de um cotidiano mal declarado da nossa sociedade. No entanto, o conselho valeu, me insultavam e eu reagia, não ficava chorando e nem ia lamentar para a professora como os demais colegas. O que ela não tinha contado era que um xingava e os demais apoiavam e eu, indefeso, ficava furioso. Como eram vários partia para as pedras. Rapidamente me tornei especialista em correr, corria mais que eles e assim os desafiava. Dentre as habilidades conquistadas, uma era de correr e pular o muro de casa sem abrir o portão. Isso me salvava do linchamento coletivo. Aprendi sem que ninguém me ensinasse que havia insultos de pretos e insultos de brancos. Que havia unidade nos insultos de branco, e mesmo nas reações contra os insultos de negros.

Chamaram-me de macaco e eu nunca mais fui à escola é o titulo de um dos artigos que escrevi baseado numa história que vivenciei numa pesquisa que realizava na cidade do Recife. Pode parecer bobagem que uma criança bem alimentada da classe média, com todo o apoio familiar, esteja disposta a deixar a escola somente por esta coisinha de ser chamado de macaco. Sim, fala profundo, pois não se trata de um ato isolado, faz parte de uma orquestra socialmente treinada, eu bem conhecia, em que todos se viram contra o negrinho e o único jeito é correr. Via-me correndo nos olhos deles, comigo correndo e pulando o murro. São tantas e tantas coisas que a casca da maçã podre torna-se invisível, mas intragável, e mesmo assim tem pessoas obrigadas a comê-la.

Se te chamarem de saci, retruque, chame-os de pirata da perna de pau. Sim minha mãe me treinava para a defesa, mas quem os treinava para o ataque? Porque me atacavam? Como minha mãe sabia que eu seria atacado?

Quem os treinava para atacar foi fácil de identificar, a professora. Quem lhes dava munição de ataque também foi fácil de identificar, o Monteiro Lobato. Ele vinha com Saci, dona Benta e outros e os colegas rapidamente captavam a mensagem. Dar risadas, não das histórias, mas de mim. Ficavam mostrando a capa do livro, tiravam as maiores caçoadas. Aprendiam pedagogicamente os treinos de quem é quem na sociedade brasileira.

Este é lado podre da maçã racista que eu sou obrigado a comer, com uma ressalva: os demais não ficam constrangidos, pelo contrário, se sentem maiores, ficam como indiferentes, como inocentes, mas de vez em sempre desferem o ataque. Saci, urubu, macaco já fui chamado de todos os espécimes do zoológico da lógica racista brasileira.

A professora me pedia para prestar atenção para que eu aprendesse. Aprender o quê? Eu detestava essas histórias, e, no contexto da minha parte da maçã, não tinha nenhuma graça e nenhum interesse. Nem mesmo o verme da maçã deveria gostar de tais escolhas. No entanto, os meninos brancos se divertiam com elas. 

Um dia vim saber que eram as melhores histórias da literatura infantil brasileira, ficava imaginando com seriam as piores. Também tentaram me convencer que se tratava do maior escritor de literatura infantil brasileira. Não lá em casa, ele nunca entrou, minha mãe sempre preservou a minha saúde mental. Penso que um grande escrito de literatura infantil deva dar exemplos que dignifiquem a natureza humana e transmitam valores éticos. Um verme da escrita pode estragar as mentes e transformá-las em imaginários racistas. Somente num meio racista que outro racista é utilizado para ensinar as crianças a serem racistas. 

Somente quem come o lado podre da maçã sabe o que significa o lixo, a maçã e a sua podridão. A sensibilidade humana é perdida porque é formada lendo Saci, Dona Benta e outros. Torna-se alegre diante do ridículo desumano. 







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terça-feira, 3 de abril de 2012

A Rede CE em Movimento, num Balanço Popular!: Sonhos que tecem a Rede: Muitas vozes e mãos const...

A Rede CE em Movimento, num Balanço Popular!: Sonhos que tecem a Rede: Muitas vozes e mãos const...: A Rede de Educação Cidadã – (Recid), na sua missão de articular os diversos atores sociais, entidades e movimentos populares do Brasil que assumem solidariamente a realização de um processo sistemático de sensibilização, mobilização e educação popular da população brasileira, em especial dos grupos vulneráveis econômica e socialmente, promove o diálogo e a participação ativa na superação da miséria, afirmando um projeto, democrático e soberano de nação. A Recid Ceará, reafirmando seu Projeto Popular de transformação e inserção social, realiza o seu 3° Curso de Formação em Educação Popular - Movimentos Sociais e Comunicação com tema específico sobre Web-rádios. Veja aqui como foi o primeiro módulo.


acesse também: www.recid.org.br  e www.movimentorecidce.blogspot.com 


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Quanto Custa o Congresso Nacional

Esta reportagem foi exibida no Jornal Bom Dia Brasil da TV Globo e depois foi silenciado pela cúpula do Congresso Nacional. É o que tá rolando na rede. De qualquer maneira vale a pena a gente compartilhar para divulgar o absurdo que este parlamentares gastam do dinheiro publico. Depois vão dizer que a porra de um aumento de 10% no salário mínimo pode ser desastroso para economia. Desastroso é o caralho. Desastroso são esses bando de merda torrando o dinheiro público e ainda favorecendo o enriquecimento de grupos multinacionais com essa coisa de copa do mundo, aquário, olimpiadas e outras eventos megalomaníacos.




Divulguem...

terça-feira, 27 de março de 2012

Memórias do Reisado do Escuta

Durante a leitura do Livro de Ecléa Bosi, Memória & Sociedade: Lembranças de Velhos, remexi a minha memória digital e encontrei este áudio de D. Angélica sobre uma cantiga entoada nas Tiradas de Reis no Pici. Encontrei nesta gravação uma intrínseca relação com o que diz Bosi no seguinte trecho:

"Se existe uma memória voltada para a ação, feita de hábitos, e uma outra que simplemente revive o passado, parece ser esta a dos velhos, já libertos das atividades profissionais e familiares. Se tais atividiades nos pressionam, nos fechando o acesso para a evocação, inibindo as imagens de outro tempo, a recordação nos parecerá algo semelhante ao sonho, ao devaneio, tanto contrasta com a nossa vida ativa. Esta repele a vida contemplativa. Mas, o ancião não sonha quando rememora: desempenha uma função para a qual já está maduro, a religiosa função de unir o começo ao fim, de tranquilizar as águas revoltas do presente alargando suas margens". Bosi (1994. p. 81-82)

O áudio foi gravado durante o Reisado do Escuta na comunidade do Feijão, bairro Pici em Janeiro de 2012.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Poeminhameu


(João Paulo Roque)

Queria como Millor
Escrever um "poemeu"
Que falasse assim
De coisas serenas.
Nas linhas, desejo!
Três palavras apenas.
Mas que pena
Penso, não deu!
Só tenho poeminha
Ao invés de poemeu
Assim vou chamá-lo
Poeminhameu